Gramado Summit 2026: IA, conversas e o novo papel da comunicação estratégica nas empresas
Em 2019, no Web Summit em Lisboa, ouvi pela primeira vez uma conversa aprofundada sobre Inteligência Artificial aplicada aos negócios. O tema ainda parecia distante da operação real das empresas.
Em 2023, de volta ao Web Summit, a discussão havia avançado — não apenas sobre IA, mas sobre a importância dos dados para sustentar essas tecnologias.
Em 2026, essa mesma conversa ganha forma prática no Brasil. O Gramado Summit foi a prova disso.
Como estrategista de marketing e comunicação para empresas, circulei entre a Arena IA e o palco do E-commerce Brasil com uma lente específica: o que esse movimento significa para quem precisa tomar decisões de posicionamento, estrutura comercial e comunicação.
O que ficou evidente é que a inteligência artificial deixou de ser promessa tecnológica e passou a ocupar um papel central na forma como empresas atendem, vendem e se relacionam com seus públicos.
1. A IA não corrige operações desorganizadas — ela as amplifica
A transformação digital consolidou os canais digitais como parte central dos negócios. Isso já aconteceu. O problema é que, mesmo após anos de digitalização, a maior parte das empresas ainda opera de forma fragmentada: marketing não conversa com comercial, atendimento não alimenta inteligência de negócio, dados ficam dispersos. Conversas acontecem todos os dias, mas raramente viram aprendizado estruturado.
É justamente nesse espaço que a IA começa a ganhar relevância — não como ferramenta isolada, mas como arquitetura de inteligência capaz de conectar tecnologia, dados, comunicação e operação.
Ainda estamos no início dessa curva. A IA em serviços segue concentrada entre inovadores e early adopters, mas a velocidade de adoção tende a ser muito maior do que em ondas anteriores de tecnologia. A vantagem competitiva estará em perceber antes da maioria onde estamos nessa curva, e transformar intenção em implementação.
Um dos conceitos mais fortes apresentados no evento foi o de agentes orquestradores: sistemas capazes de coordenar APIs, ferramentas, canais e automações em uma mesma lógica operacional — conectando CRM, WhatsApp, atendimento, vendas, financeiro, onboarding e pós-venda, tudo alimentado por dados e contexto.
O paradoxo é que quase todas as empresas querem implementar IA, mas poucas conseguem estruturar isso de forma consistente. Dados apresentados no evento mostram o gap: 99% das empresas planejam implementar IA agêntica, 93% dos líderes de tecnologia pretendem introduzir agentes nos próximos dois anos, mas apenas 2% conseguiram deploy em escala completa. Segundo estudo do MIT em parceria com o Project HANDA, 95% dos projetos corporativos de IA falham.
O motivo é quase sempre o mesmo: empresas tentam implementar IA sem estrutura operacional organizada. A IA não corrige uma operação desorganizada. Ela amplifica o que já existe.
2. A Comunicação Integrada como infraestrutura de IA
Talvez o principal insight do evento tenha sido perceber que a comunicação integrada se torna ainda mais importante nesse novo cenário.
A Comunicação Integrada, que foi tema do meu projeto de TCC em 2011, foi um conceito criado por Margarida Kunsch em 2003. Há 30 anos, ela sistematizou a comunicação organizacional em quatro dimensões — institucional, mercadológica, administrativa e interna. O que mudou é que a IA tornou sua ausência imediatamente visível.

Desenvolvido por ThinkLab Adaptado de Kunsch, Composto de Comunicação Integrada, 2003
Cada dimensão corresponde a uma camada de conhecimento que sistemas de IA precisam acessar para funcionar com coerência. A dimensão institucional define tom de voz e posicionamento — como o agente representa a empresa em qualquer interação. A mercadológica estrutura scripts, jornadas e inteligência comercial. A administrativa documenta processos, regras e critérios de decisão. A interna organiza cultura, padrões de resposta e consistência de atendimento em escala.
Mas esse conhecimento, da IA na prática, vem de duas fontes distintas: dados internos e públicos.
Os dados internos — conversas, CRM, históricos, processos documentados — revelam como a empresa realmente opera. Os dados públicos — conteúdo indexado, menções, presença digital — determinam como ela é compreendida e recomendada por inteligências artificiais.
Implementar IA sem essas camadas estruturadas não é neutro. É amplificar o que já existe, incluindo o caos.
A comunicação deixa de ser divulgação. Ela passa a ser a arquitetura que faz a IA funcionar.
3. O texto como infraestrutura das inteligências artificiais
Outro ponto evidente no evento: o texto se tornou a principal matéria-prima das IAs.
Prompts, scripts comerciais, FAQs, padrões de resposta, fluxos conversacionais, critérios de personalização, bases de conhecimento — tudo isso alimenta agentes e sistemas conversacionais. Isso muda o valor estratégico do conteúdo. Não estamos mais produzindo texto apenas para redes sociais ou blogs. Estamos produzindo inteligência treinável: documentando como a empresa responde, vende, atende, se posiciona, conduz jornadas.
O conteúdo deixa de ser mídia. Ele passa a estruturar comportamento operacional.
4. Dados internos: o motor que já existe
Todas as empresas já possuem bases de dados extremamente ricas. O problema é que esses dados raramente estão organizados para tomada de decisão e automação.
Conversas de WhatsApp, por exemplo, carregam dúvidas recorrentes, objeções, padrões de compra, linguagem dos clientes, falhas operacionais, gargalos comerciais. Esses dados ajudam a estruturar scripts, fluxos de atendimento, treinamentos e agentes de IA. O mesmo vale para CRM, históricos de compra, tickets médios, origem de leads, recorrência por perfil de cliente.
Análises que antes levariam meses hoje podem ser feitas em horas — desde que a empresa tenha estrutura para organizar e interpretar o que já produz. Transformar informação dispersa em inteligência operacional é, provavelmente, a aplicação mais imediata e subestimada da IA nos negócios.
5. Dados externos: GEO e a nova lógica de descoberta
O crescimento das buscas mediadas por IA também foi tema recorrente no evento. Embora o Google siga como principal canal de aquisição, as recomendações feitas por inteligências artificiais já começam a ganhar relevância em tráfego e conversão.
Isso muda a lógica da presença digital. O site deixa de ser apenas institucional e passa a funcionar como base de contexto, centralizador de leads e fonte de treinamento para IA. Blogs ganham ainda mais importância como motores para buscas conversacionais. Redes sociais seguem relevantes pela atualização constante e validação pública da marca.
SEO começa a dividir espaço com GEO — otimização para mecanismos generativos. Não basta mais ser encontrado. As marcas precisarão ser compreendidas, organizadas e recomendadas por inteligências artificiais. Isso exige clareza, profundidade, consistência narrativa e produção contínua de conteúdo com autoridade temática.
6. O case Arezzo: quando a IA vira infraestrutura de experiência
Um dos painéis que melhor traduziu a aplicação prática foi “O poder das conversas na era da IA: canais conversacionais como motor de CX e vendas”, apresentado por Erick Buzzi e Ricardo Pinho com o case do Grupo Azzas.
Os números após a implementação da IA conversacional foram expressivos: mais de 50 mil atendimentos por mês, 68% de retenção pelo bot, aproximadamente 90% de índice de solução e abandono próximo de zero.
Mas o dado mais importante não é o volume. É a combinação entre retenção, resolução e baixo abandono — isso indica que a IA deixou de funcionar como triagem e passou a atuar como infraestrutura real de experiência e conversão.
No caso do Grupo Azzas, esse movimento ganha ainda mais relevância porque o grupo opera múltiplas marcas — Arezzo, Vans, Schutz — com públicos e repertórios distintos. Criar agentes com personas próprias para cada marca mostra que escalar atendimento com IA não significa padronizar. Pelo contrário: exige governança de marca, curadoria de tom de voz e base de conhecimento estruturada. Branding e narrativa ganham espaço central na IA conversacional.
A apresentação reforçou um ponto que resume bem o que o evento inteiro mostrou: a performance da IA depende menos do “bot” em si e mais da arquitetura que o sustenta.
Um agente eficiente precisa de mente — para acessar conteúdos, políticas e informações confiáveis. Voz — para traduzir a identidade da marca em linguagem. E braço — para executar ações concretas: consultar pedidos, acionar trocas, registrar tickets, apoiar vendas.
Um bot isolado responde perguntas. Um agente integrado entende contexto, reconhece jornadas, reduz fricções e transforma cada interação em dado útil para a operação.
O que fica
Nesse novo cenário, WhatsApp, Instagram, bots e demais pontos de contato digitais deixam de competir entre si e passam a compor uma única camada de inteligência relacional.
O futuro do relacionamento digital não será definido por campanhas ou canais isolados — mas pela capacidade das marcas de transformar cada conversa em experiência, dado, vínculo e oportunidade de conversão.
Comunicação não é mais uma camada de divulgação. É a arquitetura que faz a IA funcionar para gerar novos negócios.
Framework · Kunsch, 2003 · Adaptação ThinkLab
Comunicação Integrada como infraestrutura de IA
Input → Processamento → Output
Cada dimensão da comunicação organizacional alimenta agentes de IA com entradas, lógica e resultados distintos. A estrutura que existe na empresa determina a inteligência que a IA consegue entregar.
| Dimensão | Input | IA | Output |
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01
Comunicação
Administrativa Fluxos · Processos · Definições
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02
Comunicação
Interna Cultura · Colaboradores · Alinhamento
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03
Comunicação
Institucional Valores · Identidade · Reputação
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04
Comunicação
de Marketing Canais · Vendas · Jornadas
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A IA aprende da operação e da percepção pública da marca.
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Dados Internos
CRM, WhatsApp, histórico de vendas, SAC, reuniões gravadas, processos operacionais, base de clientes, dados financeiros
Dados Públicos
Site institucional, blog, redes sociais, SEO/GEO, reviews públicos, conteúdos publicados, Google Business, dados de concorrentes
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A IA não depende apenas de tecnologia. Depende de contexto, organização, critérios e linguagem. A empresa precisa estruturar inteligência organizacional primeiro. Depois vem a IA.
Kunsch, 2003 · Adaptação ThinkLab
Ver artigo completo →Scripts, fluxos, bases de conhecimento, tom de voz, jornadas documentadas — tudo isso nasce de decisões estratégicas que precisam vir antes da tecnologia.
Na ThinkLab, atuamos há mais de 15 anos em mercados competitivos e de alta complexidade — indústrias B2B, ecossistema da saúde, beleza, bem-estar e estética médica. Estruturamos posicionamento, narrativa e inteligência comercial para operações em crescimento.
Se a sua empresa está implementando IA e percebe que falta estrutura e integração antes da tecnologia — diretrizes, narrativa, dados organizados nas diferentes áreas, jornadas documentadas — é exatamente esse o trabalho que fazemos.
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Nicole Simonato é estrategista de marketing e comunicação, fundadora da ThinkLab e especialista em posicionamento de marcas, autoridade digital e crescimento em mercados de alta complexidade. Pesquisa os impactos da inteligência artificial para marketing e vendas.
nicole.simonato@thinklab.cc
